quinta-feira, março 05, 2009

O Épico em O Curioso Caso de Benjamin Button

A estrutura narrativa em Benjamin Button mistura elementos do drama puro com elementos épicos, criando uma obra singular. Isto não é uma novidade nem no teatro, nem no cinema, onde grandes autores de ambas as artes utilizaram estas experimentações, originalmente teorizadas e aplicadas por Bertold Brecht. Em Benjamin Button, o debate que se seguiu ao seu lançamento conteve críticas injustas feitas justamente a escolhas que são autorais e artísticas: contar uma história a partir de um pano de fundo dramático completado por elementos épicos. O problema do debate foi confundir essas escolhas e chamá-las de defeitos, quando elas são, na verdade, conscientes e intencionais.
A dramática em Benjamin Button está no romance entre Daisy e Benjamin. Esse romance encadeia a narrativa. O tempo vai passando e, como nas histórias de amor clássicas, vemos os dois personagens se conhecerem, se apaixonarem e enfrentarem obstáculos que os mantém separados por boa parte de suas vidas. O impedimento principal é o fator que carrega a trama: a “doença” do protagonista. Os outros são conseqüências deste e estão ligados às decisões do par romântico diante da situação. A aparente diferença de idade faz com que eles se separem: Daisy tenta seduzi-lo e ele a recusa, depois é ela (em Nova York) que o manda embora. Mais tarde, já em Paris, após o acidente, ela também o repele. Por fim, cabe a Benjamin uma decisão final que é partir após o nascimento da filha, mas aí, não se trata mais de peripécia, mas sim uma decisão conclusiva.
Se fizermos um recorte e separarmos todas as cenas de interação entre Daisy e Benjamin teremos um filme de amor, que se resolve. Há uma ação encadeada, que envolve o espectador, o emociona, o entretém, que é praticamente linear e que faz o filme ter começo, meio e fim. Todo o resto, ou seja, todas as experiências de vida de Benjamin Button contadas de maneira episódicas são épicas. São os elementos que nos colocam como observadores, tanto quanto é observador o próprio narrador: a vida no asilo, a experiência da morte próxima, as viagens, os fatos históricos, os personagens que vêm e vão.
Foi este lado observador, aparentemente sem motivação, que provocou críticas ao filme, porque nas leis do drama, um personagem principal sempre tem objetivos bem definidos. Porém, na épica não. É esta característica que engrandece a história pois desloca a narrativa de uma posição ativa e evolutiva para uma posição reflexiva e em face do contexto em si. Três cenas no filme são chave para entender esta questão: de um diálogo com sua mãe, Benjamin aprende que a morte é a única certeza, de sua amiga pianista, ele aprende a dor da perda e de seu amigo pigmeu, ele entende sua solidão. Eis o que faz, em minha opinião, deste um grande filme: a maneira como aborda temas tão pulsantes.
Destaco também, o papel do asilo como o cenário mais importante da trama. Tudo começa e termina no asilo, ante-sala da morte. Diante de sua condição, Benjamin é obrigado a conviver com esses temas – a morte, a perda, a solidão - diariamente, o que o separa dos seus semelhantes e o coloca numa posição de acostumada lucidez. Benjamin é um personagem simbólico que vaga pela vida consciente de que está só de passagem, amigo intimo de um relógio que ele compreende de maneira diferente dos demais, nos convidando, como espectadores, a dividir com ele esta compreensão.