quinta-feira, julho 27, 2006

Por que o mundo ainda precisa do Super-Homem?

Assisti a Superman Returns na mesma época em que lia A Água e os Sonhos, de Gaston Bachelard. Livro e filme são ótimos e a coincidência entre as duas atividades foi um privilégio. Ficou impossível não ver muitas das idéias do filósofo francês se materializarem no filme. Principalmente, a constatação de que ainda precisamos reviver e recontar os mitos tradicionais, mesmo que eles usem capas e códigos da nossa era, e reconhecer quão fortes esses mitos ainda são. Lois Lane nos dá a chave para analisar o filme e o objetivo deste texto é tentar responder à sua pergunta.

Gaston Bachelard revela – citando Charles Ploix - que “o drama mitológico fundamental – tema monótono de todas as variações – é, como se sabe, o drama do dia e da noite. Todos os heróis são solares; todos os deuses são deuses da luz. Todos os mitos contam a mesma história: o triunfo do dia sobre a noite. E a emoção que norteia os mitos é a emoção primitiva por excelência: o medo das trevas, a ansiedade que a aurora vem finalmente curar. Os mitos agradam aos homens porque acabam bem; os mitos acabam bem porque acabam como acaba a noite: pelo sucesso do dia, pelo sucesso do bom herói, do corajoso herói que rasga e faz em pedaços os véus, que desata a angústia, que devolve a vida aos homens perdidos nas trevas como num inferno”.[1]

Desta citação, ressalto três idéias: a natureza invariável do drama mitológico, o medo primordial como enredo e a necessidade de um herói que enfrente este medo por nós. Este herói não pode ser qualquer um. Deve ter poderes, sabedoria e conhecimentos sobre-humanos. Em uma cena importante de Superman Returns nosso herói, após ter um pedaço de kriptonita retirado de seu corpo por Lois Lane, sobe aos céus e atravessa as nuvens até ser exposto aos raios do sol que imediatamente o curam e restauram seu poder. “Todos os heróis são solares, todos os deuses são deuses da luz”.

A divindade se confirma nesta imagem, muito bonita por sinal, da sua comunhão com o sol.[2] O sol como pai, princípio masculino, em oposição à lua, mãe, princípio feminino. É um simbolismo direto. É um filme sobre a paternidade. Há pais ausentes e a descoberta de que o próprio Super-Homem pode ser um. Seguindo esse raciocínio, é interessante ver como Lois Lane está ligada à noite. As cenas em que o casal está sozinho acontecem sempre de noite.

Ligado ao sol e lindo de morrer: este é o Homem. Uma divindade, como Osíris, para os egípcios ou Apolo, para os gregos. E não são só estes. O Sol como deus é símbolo de tantas culturas quantas existem sobre a Terra. É só escolher. O Sol é cultuado por tribos desde a idade da pedra. Faz parte do inconsciente coletivo há milênios. Talvez já seja parte do código genético. E tal universalidade faz com que a nossa identificação seja imediata. Desta forma, Super-Homem resgata uma imagem primordial. Torna-se um herói mitológico.


A versão atual ressalta a divindade do herói com mais ênfase que a de 1978. Se antes, a ficção científica era o foco, agora, este está no seu lado messiânico. Muitas são as cenas em que isso ocorre. Em uma delas, Lex Luthor é confrontado por sua namorada, Kitty Kowalski, que lhe afirma que ele não é Deus. Ele retruca, irônico e cético: “Gods are selfish beings who fly around in little red capes and don’t share their power with mankind” (“Deuses são criaturas egoístas que voam por aí em capinhas vermelhas e não dividem seu poder com a humanidade”). Lex Luthor se acha outro mito, Prometeu.

Um outro momento acontece quando Super-Homem alça vôo por Metrópolis carregando Lois Lane. Nesta cena, ela está magoada. Diz a ele que o mundo não precisa de um salvador. Ele a leva para bem alto. Eles podem ver o mundo de cima. Pergunta: “você ouve?”. Ela diz: “não ouço nada”. Ele lhe responde: “I hear everything. You wrote that the world doesn’t need a savior, but everyday I hear people crying for one”. (“Eu ouço tudo. Você escreveu que o mundo não precisa de um salvador, mas todo dia eu ouço as pessoas clamando por um”).

A cena é ótima. É como se ele a levasse a pensar: “o que é que você quer que eu faça? Tape os ouvidos?” Aqui o personagem esclarece o seu conflito. Seu código de ética não permite que ele se aliene. Sua missão foi decidida por seu pai. Assim, consciente, ele vai para o martírio. Super-Homem não tem escolha justamente por ser um herói solar. Ele não pode renunciar ao seu destino de servir a humanidade por um capricho individual. Super-Homem é a versão pop de Moisés, Cristo, Krishna, Buda e outros avatares? Sim. Por que não? Não poderia ser diferente pois a egrégora é forte e não muda. O drama é só recontado, como diz Bachelard.[3]

Chego assim à questão proposta pela jornalista do filme: por que o mundo ainda precisa de heróis solares? De divindades? De deuses? De salvadores? A resposta está ligada ao terceiro ponto de Bachelard: o medo primordial das trevas, a angústia da noite. O fato é que toda a tecnologia e todo o avanço da ciência ainda não fizeram com que superássemos esta emoção. A resposta no entanto vai além. O desafio super-humano é ver o divino como parte de nós mesmos, como uma força latente. Sabemos que necessitamos daquilo que nos eleva, que nos abre as perspectivas, que nos torna menos egoístas, que nos deixa ver e ouvir os lamentos e, principalmente, que nos coloca no lugar do outro, contudo, ao contrário do Super-Homem, isto está longe de ser um talento natural.

Basicamente, o que nos separa do Super-Homem, do seu lado solar, é que somos “super” em poucos momentos da vida. Vivemos na roda da fortuna e a alimentamos a cada dia. Quantos medos! De doença? Que Deus nos ajude! De guerra? Rezemos pedindo paz. De perder o emprego? Ah, os draminhas cotidianos! Medo da destruição da floresta amazônica? Do PCC? Do Lula? Do Bush? Da Al Qaeda? Façamos uma guerra em nome de Deus! Quantos medos! E aliados a eles, quantas promessas e pedidos de ajuda. Quem é que não os faz de vez em quando?

A cada dia, ao alimentarmos a Roda de Sansara, mais presos estamos a ela. E a alimentamos com nossos lamentos, com nosso egoísmo, com nosso apego e visão estreita das coisas. Para voar lá em cima, é preciso muito desapego. Enquanto tivermos que olhar para os céus, enquanto pedirmos em uníssono pela presença de um salvador, o Super-Homem existirá. Constato assim que alimentamos a força do Super-Homem a cada segundo com todas as nossas fraquezas. E elas já duram milênios. Não é de admirar que o personagem fique cada vez mais forte. Assim, concluo que monótono não é o drama imaginário. Monótona é nossa história.

Felizmente, a existência deste herói é uma escolha nossa. Podemos escolher ser fracos ou fortes. Super-Homem é o nosso oposto e a nossa possibilidade. Enquanto isso não ocorre, temos a alternativa de ficar grudados na tela absorvendo as imagens e a música numa hipnose coletiva. Tudo acaba bem, como tem que ser. Saímos felizes como de um ritual mágico. Ao final, até aplaudimos, como aconteceu na sessão que assisti. Catártico.


[1] BACHELAR, G. A Água e os Sonhos. São Paulo, Martins Fontes, 2002. p.160.
[2] A genealogia do Super-Homem diz que seus poderes são fruto do sol amarelo do nosso sistema solar. O filme Superman Returns relembra e enfatiza tal associação.
[3] No seu enredo, Superman Returns é uma variação bastante parecida da primeira adaptação para o cinema, de 1978, com Christopher Reeve. Há seqüências irmãs em quase todos os momentos.